sábado, 24 de outubro de 2009

Self Destruction


Três da manhã.

Ela entrou pela porta da frente e decidiu sentar-se ao meu lado.

Dentro de mim sinto a bateria incontrolável a pulsar de sensações desconhecidas, mas que reconheço bem demais. O seu sussurro invade os meus ouvidos como um mantra da morte que me condena aos mais terríveis prazeres. As minhas veias dilatam e o sangue flui como se pretendesse atingir a velocidade da luz.

Estou electrizada.

Quero sentir tudo! Sempre quis, mas o que acontece agora? As sensações mais enlouquecedoras parecem… triviais.

Nada me excita.

Nada me leva ao orgasmo.

Tudo é mais do mesmo.

Sinto o corpo em dormência constante e de repente…

Lá estás tu! Esse teu sorriso mordaz combinado com o olhar dominador que me hipnotiza. Morro e ressuscito para a vida das loucuras anunciadas, para as dilacerações contínuas que elevam o corpo ao prazer inominável.

As mãos conjugadas percorrem o corpo outrora dormente. Os beijos acontecem. Os dentes cravam a carne. Os sussurros tornam-se tórridos. Os corpos se entrelaçam.

Como que se emergisse das profundezas, respiro. O fôlego me falta, mas procuro-o dentro de ti. As palavras são engolidas como se de goles desesperados de prazer se tratassem. Nada mais é dito, tudo é gemido desesperado de prazer.

O mundo pára, as palavras deixam de fazer sentido, os corpos conversam entre si como amigos de longa data num trocar de carícias sem fim.

Arrepiar. Estremecer. Enlouquecer. Prazer.

Tudo é prazer quando nada mais me domina além de ti.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Desmoronou.

Pensei que poderia ignorar a tua passagem, fingir que não exististe em mim com tamanha importância, pois assim, se calhar, era mais fácil para mim acreditar que nada aconteceu. Se tivesse acontecido alguma coisa se teria desenvolvido, obviamente! Estupidez a minha! Por vezes, esqueço-me momentaneamente – durante dias, meses ou anos – que mentir para mim mesma é sempre a pior mentira. Momentos difíceis estes que duram o tempo da minha ignorância…

Brotaste em mim como uma rosa de beleza misteriosa e cheia de espinhos escondidos. Como manda a ordem natural das coisas, desabrochaste de um botão à flor aberta, mas cada etapa foi deliciosamente saboreada por mim.

Brotaste timidamente, cresceste rápido e em pouquíssimo tempo. Ao ver-te pela primeira vez, como botão de rosa, reconheci em ti a beleza escondida pelo mistério do teu olhar, através dele desabrochavas devagar, abrias-te lentamente, tinhas medo de vacilar…

Com o passar do (pouco) tempo que te observei, vi as pétalas começarem a abrir-se, sentia o teu perfume inebriante e o toque da tua pele de rosa macia elevou-me aos céus. Nessa altura já os teus espinhos existiam e eram visíveis, mas a minha rebelde covardia impediu-me de descortiná-los, o meu carinho pela flor como um todo impediu-me de lhe arrancar pedaços, mesmo que esses pedaços fizessem-me sangrar.

Tu não és uma rosa normal, não murchas, não morres, não deixas de existir. Vives dentro de mim, como pétalas, como flor e como espinhos. Fora de mim vives, vives como és, admirável personagem inusitada pouco conhecida, mas muito falada.


Não te afastes… Mas não te aproximes!

Mantém a distância exacta que os nossos corpos necessitam para não serem conduzidos pela lei da atracção. Mantém-te perto, mas não em demasia, senão o calor da tua pele em contacto com a minha far-me-á enlouquecer mais uma vez.

Não fujas de mim!

Não te afastes!

Não vás para longe, pois a tua ausência seria uma dor insuportável!

Cada centímetro de ti que percorri…

Cada palavra tua que consumi…

Cada olhar teu que foi cravado em mim…

Cada risada tua assim-assim-assim…

Cada ínfimo detalhe…

Cada fragmento de ti em mim, fez-me construir castelos nas nuvens… Daqueles que se desfazem com uma simples brisa de pensamento.


Fuuuuuuuuuu

DESMORONOU


Dedico à ti, por me teres feito mover as montanhas que me impediam de sentir.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Au revoir


Respiro o ar pesado da saudade antecipada daqueles momentos que preenchem a minha memória e a minha alma. Olho à minha volta e mentalmente fotografo os lugares por onde passo. Mentalmente visualizo aquilo que já vivi ali. Pequenos pedaços de mim espalhados por ruas cheias de nada e cheias de tudo. Tento não me asfixiar nas memórias elevadas a acontecimentos espaço-temporais distribuídos nas vielas e pedras da calçada. Espalhadas pelos sítios onde pisei nos meus sonhos, nos meus desejos, nos meus anseios.

Vejo a chuva que cai pouco tímida a lavar as lembranças que tento agarrar com todas as minhas forças, mas não sei se sou capaz. Não sei se tenho a capacidade inglória de seguir sem olhar para trás. Não sei se terei a capacidade de manter a suposta dignidade daqueles que não choram e entrar no carro para sair desta cidade.

No meu quarto, as paredes antes ornadas, hoje estão vazias.

O meu armário, outrora cheio, hoje está vazio.

As prateleiras, dantes cheias de livros, hoje estão vazias.

A minha mesa, que era uma confusão organizada, hoje está vazia.

A casa, ontem habitada, hoje está vazia.

Longos são os anos, mas passam e passam rapidamente.

O tempo não pára – já dizia o poeta.

Na vida tudo tem um prazo – ela disse-me.

É verdade, temos prazos para viver os momentos, para nos encontrarmos, para amar, para sermos felizes e até mesmo para viver simplesmente.

Hoje sei, o meu prazo expirou.

Acabou o meu tempo aqui e num futuro, seja ele próximo ou distante, conseguirei lidar com isso, mas neste momento o que eu sei e o que consigo dizer resume-se apenas a…

Vila Real. Cidade que me acolheu e que tanto viu de mim, que tanto fez por mim, que tantas vezes me agarrou nos seus braços, recebeu as minhas lágrimas e as minhas gargalhadas, embalou o meu sono. Cidade onde amadureci e aprendi tanto em tantos aspectos. Serás sempre parte de mim, pois sem a minha passagem pelas tuas ruas, pelas tuas calçadas, pelas tuas fontes, pelos teus parques, eu hoje não seria quem sou. Obrigada por me teres acolhido como acolheste o meu pai. Obrigada por teres concedido a tua bela vista aos meus olhos e me teres ensinado que a nossa casa não é para onde as cartas oficiais vão, mas onde nos sentimos bem.

Meus amigos, vocês são, e ao longo do tempo continuarão a ser, importantes para mim. Vocês estiveram comigo quando eu precisei. Vocês conhecem-me, uns melhor, outros pior, mas sabem como sou. Orgulho-me de vos ter conhecido e acima de tudo orgulho-me pelo facto de fazerem parte de mim, parte da minha vida. Já sinto saudades vossas.

CIRCO!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Tarde no parque

Breves momentos, minutos de desalento, incógnitas.

Palavras, pensamentos, sentimentos.

Clausuras do falar.

Jogos de dissimulação.

Brincadeiras ardilosas,

Matreiras, perigosas.

Segundos passam, as horas arrastam-se.

Nada de relevante é encontrado neste ambiente simulado.

Cada gota de cristal é apenas água e sal.

Cada instante passado é apenas mais um minuto a ser esquecido ou recordado.

Ordem do dia: Desprendimento.

Desligando-se daquilo que nos faz cair, conseguimos subir os degraus com menos tempo desperdiçado no acto de tropeçar.

Quando caímos, aprendemos. Mas quando algo nos mantém colados ao chão, simplesmente não desenvolvemos.

Tal como Benjamin Button, regredimos ao estado primário da nossa existência.

Tornamo-nos, mais uma vez frágeis e vulneráveis.

Tornamo-nos, mais uma vez, simples crianças que nada sabem e que estão susceptíveis à tudo, seja bom ou mau.

Algumas indicações:

Não olhes para trás, sob o risco de numa estátua de sal te transformares. Não cometas os mesmos erros e, o mais importante de tudo, não sejas manipulável.

Lembre-se: Ser vítima das circunstâncias é tão empobrecedor da alma como ser o vitimizador.

E agora…

Levanta-te!

Respira fundo.

Olha em frente e anda.

Sobressaia, mas não destoe.

Envolva, mas não sufoque.

Encante, mas não ludibrie.

Cresça! – mas não ao ponto de te faltar o ar.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A menina que balança.


Tic-tac o relógio avança.
O tempo não pára.
A menina avança.
Cai, mas levanta.
Não quer perder a esperança.
Mexe-se ao compasso daquela triste dança.
Tão frenética, tão enérgica.
Simplesmente não se cansa.
Se cai, levanta.
Se cansa, não pára.
Se vai, volta sempre.
Se sai, repete a dança.
Quão triste e repetitiva é a menina que se balança.
Solta os cabelos, mas não avança.
Tem vontade, mas perde a esperança.
Quão triste e repetitiva é a menina que se balança.
Rebola, remexe, requebra. Verga, mas não parte.
Se partir, volta a juntar caco por caco e continua a dança.
Quão triste e repetitiva é a menina que se balança.
Ela pende de um lado para o outro, mas nunca se esquece de fazer a sua dança.
Anda em meio à multidão de hereges sem perder a esperança.
Quão triste e repetitiva é a menina que se balança.
Aquela que anda, mas nunca chega a lado algum.
Aquela que sai para não voltar, mas volta sempre ao lugar comum.
Aquela que diz o "não" final, mas no final diz "é sempre assim".
Aquela que diz "odeio-te, mas quero-te para mim".
Ela cai no vício da repetição e não volta da sua tristeza.
Quão triste e repetitiva é a menina que se balança.
Simplesmente por estar presa na sua eterna dança.